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A PARTIDA DA MARIPOSA [Nov. 17th, 2009|11:55 am]
Sessão. Terapia. Cecília Valentim sugere um exercício terapêutico. Em pé, eu dobro os joelhos, numa posição que me remete aos anos de tai-chi, com mestre Liu Pai Lin. Pernas abertas, pés paraleloas, joelhos flexionados. Fecho os olhos, tento identificar o que é que dói, de onde emana a ansiedade, o berço da angústia. Meio do estômago. Claro, há, fisicamente, uma gastrite em tratamento que nasceu há mais de um ano, depois de uns socos e pontapés que ganhei numa noite de lua cheia. Mas, também há medos, inseguranças, sentimentos que se enroscam nas minhas pernas e me atrasam o passo. Cecília pede uma imagem para esse ponto. Borboletas. Borboletas no estômago. Ou melhor, uma só. Uma mariposa, daquelas grandes, escuras, peludas. Volto quase trinta anos no passado e há uma cena: escola, dia de prova. Uma aluna, onde me vejo menina, respondia às questões. Tarde quente, verão avançado. De repente, pela porta aberta da sala de aula entra uma mariposa. Grande, escura, peluda. Ela foca, mira e vem exatamente em minha direção. Estou paralisada, com medo, com angústia. Como quebrar o protocolo de um dia de prova e sair correndo da sala de aula? Justamente eu, uma aluna aplicada, das que se sentavam nos primeiros lugares e tinham fome de conhecimento? Mas, foi inevitável. De um pulo saltei da minha carteira escolar, coração na boca, a mariposa voando em minha direção e eu voando em direção à porta. A professora não entendeu nada e foi me encontrar lá fora, no corredor, branca,gelada. Alunos em alvoroço, quem tentava colar, conseguiu. Só voltei para a sala de aula, com a certeza da professora de que aquele monstro de asas tinha entrado pela porta e saído pela janela mais próxima. Terminei a prova. Não fui tão bem quanto desejava.
O tempo passou, toquei para fora muitas mariposas de quartos, salas e casas. Chegava em meu apartamento e lá estava alguma, voando ao redor da lâmpada ou quieta no azulejo branco da cozinha. Eu olhava e pensava ou às vezes dizia em voz alta: "Pode ir embora. Aqui não tem comida pra você, seu lugar não é aqui." As espertas desapareciam rápido, as teimosas davam um tempo por ali, trocavam de cômodo. A essas uma toalha, um pano de pratos voando e logo elas achavam o caminho da roça. Nunca entendi por que as mariposas tendiam a ignorar os jardins do prédio, as árvores das ruas e escolher azulejos, paredes e tetos. Atração pela luz? Pode ser. Mas, isso dava-lhe alimento, segurança ou só ilusão? Li não me lembro onde e nem sei se isso está correto que essas mariposas são cegas. Se são cegas, por que desejam tanto a luz? Ou seria o calor irradiado pela lâmpada?
Volto para a sessão, para o meio da mandala, onde estou sob os olhos muito azuis de minha terapeuta. Ela manda soltar a mariposa. Meu estômago não é lugar para uma. Abros janelas, portas, pego uma toalha de rosto e lá vou. Toco-a para fora e fecho tudo. Que ela vá para longe, que vá voar em outras paragens. Há tanto céu lá fora! Tanta luz! No lugar que ela deixou, que ela habitava, precisamos colocar algo. Imagino um arco-íris. Ele se enrola em si mesmo, uma mandala, um infinto de arco-íris. Vai ficar no lugar da mariposa cega que se alimentava da minha luz. Esse arco-íris é o símbolo do meu pacto comigo mesma. Cecília pede um mantra e meu mantra destes dias diferentes é: Sou escritora. Passei anos desejando falar isso com naturalidade. Hoje, livre das asas do medo que voa pra cá e pra lá, consigo dizer em alto e bom tom: SOU ESCRITORA!
ANA CARDILHO 17/11/2009
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MUDANÇAS [Oct. 20th, 2009|03:56 pm]
A placa de "Vende-se" não está mais no jardim do meu quase ex-condomíno. Falta pouco. Mais um mês e entrego as chaves. Porta da frente, porta dos fundos. Depois de nove anos no mesmo endereço vendi meu apartamento. Vendi bem o danado. Pedi alto para que demorasse. Sabe aquela preguiça de vender de verdade, de buscar documentos, de assinar contrato? Eu queria vender e sabia que deveria ser assim: afinal, um condomínio altíssimo para apenas guardar uns vestidos e uns casacos, algumas botas e lençóis e toalhas e livros? Era desperdício de dinheiro.
O movimento de ir embora começou aos poucos. Meses atrás eu realmente morava naquele apartamento. Ele não continha apenas as minhas coisas mas era habitado, tinha mantimentos no armário da cozinha, e não só água com gás na geladeira. As plantas eram generosamente regadas, havia dias de limpeza, havia noites de amor, domingos de almoço com os amigos e tardes de sábado cheias de preguiça entre um dvd e outro.
Mas, a vida mudou. E mudou muito. O vento que bateu nas minhas costas tirou-me do chão, me fez vida de balão inflado e fui conhecer outros jeitos de ser e de pensar. Gostei. Fiquei.
Eu não poderia morar mais sozinha naquele apartamento. Era muita parede e muita janela e pouca luz para mim. Entre a independência por si só, daquela que temos mais para dizer que temos, de fachada, para ser moderninho, no estilo single, e mergulhar de cabeça num grande amor, ah.... Eu pulei! Mesmo não sabendo nadar. E pularia tantas vezes fossem necessárias. Este amor vale tudo.
Ainda estou em transição. Roupas aqui, na casa nova, e lá, na casa a ser entregue. Meus livros ainda estão todos por lá e devo começar a fazer caixas, pacotes, sacolas. Esse trabalho será feito nos finais de tarde, à hora da Ave Maria. Nunca desmontei uma casa. Nas outras mudanças, quando muito levei roupas, livros, agumas fotos e cds. Hoje tenho geladeira para desligar, roupas de cama para embalar.
Eu que gosto de rituais acredito que esses finais de tarde servirão, além da questão prática de deixar tudo pronto para quando o caminhão de mudança chegar, servirão também para que eu me desligue do apartamento, das coisas, para limpar os caminhos, jogar fora documentos e sentimentos antigos, com data de validade vencida.
Estou em ritmo de mudança, com o leque de opções aberto em cima da mesa. Não é só o velho apartamento que não quero mais e não é mais meu. Há muito a mudar, construir e o signo atual é a flexibilidade. Preciso ser flexível para tirar o melhor sentimento de todas as mudanças. Hoje eu escolho meu novo endereço. Não sou escolhida por ele. Hoje eu escolho meu novo trabalho. Não sou obrigada a me submeter a situações de quase morte da criatividade, do otimismo. Hoje eu encontro a mim mesma quando olho no espelho de manhã. E meu rosto vem desestressando, perdendo o medo que sempre teve da vida, do novo, do inusitado. Hoje eu desejo e o desejo se faz real.
Penso numas sessões de reiki que fiz há uns meses e a mensagem era: "Acredite, confie!". Quando acordo com o estômago doendo de ansiedade, quando não sei como será o dia, quando me perco em trilhas batidas e nada inteligentes, quando me sinto quase desesperada por uma resposta vejo a curadora Otília dizendo, em sua conexão com sábios xamãs, "Acredite, confie!".
Estou acreditando e confiando. Em mim, no meu amor, nas nossas escolhas, nas oportunidades que se abrem.
Vou pegar as caixas e começar a arrumação. Na primeira caixa vou juntar a ansiedade, a insegurança e a sensação de perda. Vou passar fita adesiva bem apertada e essa caixa não seguirá com o caminhão, não. Ela vai para o lixo.
Comigo só quero boas sensações. Peço licença ao compositor Lenine e deixo aqui o meu desejo deste momento:
"Quando eu olhar pro lado/ Eu quero estar cercado só de quem me interessa"... e do que me interessa.
ANA CARDILHO
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TORPEDO DA VIVO MORRE HÁ UMA SEMANA [Sep. 11th, 2009|06:13 pm]
Hoje faz uma semana que os torpedos do meu celular Vivo não funcionam. Eu escrevo, escrevo e escrevo e as mensagens ficam paradas na caixa de saída. Não saem. Parece tolice? É, pode ser. Mas, o que importa neste texto é mostrar o pouco caso com que o consumidor brasileiro é tratado por algumas empresas.
Quando percebi que havia um problema no envio de mensagens de texto via o meu celular da Vivo, liguei para o *8486. Musiquinha vem, musiquinha vai e eu falei com muitas pessoas. Mauricios e Vanessas, Rodrigos, Lucianas e o abecedário inteiro. Começaram me dizendo que havia uma falha no sistema. Depois havia uma troca de sistema. Em seguida, havia apenas uma falha de sistema nos bairros do Paraído e Centro. Mais uma ligação e a falha de sistema era nacional. Outra ligação, e tudo estava resolvido. Não havia mais falha de sistema e nem troca de sistema. O atendente da vez garantia que o problema era meu. Claro que é. Uma amolação sem fim ficar sem um serviço pelo qual eu pago. E pago caro. Tenho um pacote generoso para torpedos porque utilizo bem esse serviço. Comecei a ficar impaciente. Dias se passando e nada da Vivo resolver a questão. As respostas eram contraditórias. Alguns atendentes sabiam que havia uma falha no sistema, outros não tinham nem ouvido falar...que sistema?
Um atendente mandou que eu desligasse o celular, retirasse bateria e chip. Tudo bem, fiz isso. Adiantou? Nada. Liguei de novo, musiquinha vem, musiquinha vai e outro atendente, a gente nunca cai com a mesma pessoa e tem que contar a história mil vezes, ficou impaciente, me disse que eu tinha que ligar de um telefone fixo. Onde se viu ligar do MEU celular? Tudo bem. Liguei do telefone fixo da empresa onde trabalho. Adivinha? Cai com outro atendente, contei de novo a mesma história e ele me disse que em quinze minutos tudo estaria resolvido. Ha, ha, ha. nem em qunize minutos, nem ao meio dia e meia, nem em quarenta e cinco minutos e muito menos em vinte e quatro horas.
Os dias se passando, minha frustração aumentando e eu dou o azar de pegar um atendente nervoso, estressado, depois das seis da tarde. Aos berros ele dizia que eu já havia ligado sete vezes naquele mesmo dia. Sim, claro, liguei mesmo e não tive o problema solucionado. E dizia que havia sido feito um protocolo e eu deveria aguardar cinco dias úteis para que a área técnica pudesse analisar minha linha. Cinco dias úteis? Agora eu pergunto: se esse era o procedimento correto por que não fizeram o tal do protocolo para a área técnica na primeira reclamação que fiz? Por que os atendentes da Vivo ficaram me enrolando, contando histórias diversas e contraditórias e me dando prazos os mais malucos de retorno do serviço?
Estressei. Quis falar com o supervisor do rapaz nervoso e ele se negava a passar minha ligação. Perguntei se ele tinha autonomia para isso, para decidir com quem eu, cliente da Vivo, poderia ou não falar. Berros trocados, contei a ele que como jornalista eu iria escrever sobre a saga dos torpedos da Vivo ou torpedos mortos e ele me perguntou se eu estava fazendo "ameaças". Ora, pois, como se dizia lá em Portugal: artigo jornalístico agora virou "ameaça"? Não seria "denúncia"?
Como a nossa conversa esquentou, acabei falando com a ouvidoria da Vivo. O atendente conseguiu, não me passou para o supervisor. Que doce de menino!
Na ouvidoria, uma pessoa simpática, articulada, que sabia pelo menos falar e dar explicações disse que realmente a Vivo estava enfrentando uma falha sistêmica e nacional no envio de torpedos mas que tudo seria regularizado em vinte e quatro horas.
Estou esperando. Já se completaram quarenta e oito. Como estou hoje, sexta-feira, dia 11 de setembro de 2009, comemorando uma semana sem poder enviar torpedos liguei de novo na Vivo e de novo, a atendente não sabia de nada, nunca tinha ouvido falar em problemas no envio de torpedos (será que eu estou ficando louca?). Como sei que para o supervisor eles não passam o cliente pedi logo a ouvidoria. Desta vez, não tive a sorte de falar com a pessoa inteligente da vez anterior e a que me atendeu estava claramente exausta...Também, né? Quase seis da tarde de uma sexta-feira, liga uma chata reclamando que não consegue passar torpedos. Isso é importante? Com toda a fome que há no mundo, isso é importante?
Pode não ser. Mas, quando os atendentes da Vivo ligam, felizes da vida, perguntando se eu estou bem e querendo que eu compre pacotes de serviços como o envio de torpedos, eles fazem com que pareça muito importante.
Quando a conta do meu celular Vivo chega em casa, e ela é alta, sempre alta, parece muito importante.
Tenho vontade de tirar a conta do débito automático e não pagar. Quando a Vivo ligar para reclamar ou para avisar que vai cortar minha linha eu posso perguntar: Mas, isso é importante? Aguarde cinco dias úteis que a área técnica vai fazer uma análise do problema.
Talvez na minha próxima ligação, algum atendente me diga que eu devo tirar a bateria, dar três pulinhos numa perna só e chamar São Longuinho, ou vai dizer que eu devo ligar do orelhão mais próximo e apertar o celular com a mão esquerda, invocando o poder de Alexander Graham Bell!
Até lá, é isso. Sem torpedos. Ah, um detalhe... Eles não vão me dar um desconto por sete dias sem o serviço... Não é importante, afinal.
ANA CARDILHO
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LUA MARIA BRANQUELA [Sep. 9th, 2009|09:58 pm]
Ela nasceu em 04 de junho de 2009, com mais cinco irmãos. Quase todos da cor caramelo, com os olhos verdes, e um irmão bem pretinho. Ela nasceu Nina, depois virou Liz Taylor, a mais pequenina, a mais agitada e desde cedo, comilona. A mãe, conhecida como Loira, vivia na rua, batendo patinhas por aí, comendo o que achasse, o que lhe davam. Mãe e filhos foram recolhidos por anjos protetores de animais e estavam para adoção.
Vi a foto. Um monte de filhotes, uns sobre os outros. Todos lindos, todos fofos. Mas, a tal de Liz Taylor logo capturou meu olhar. Seria ela?
Mais fotos e suspiros. Liz era o charme em pelinhos curtos, orelhas enormes e aqueles olhos transparentemente verdes. Família reunida, fomos conhecer a pequena promessa.
Ao primeiro olhar, ao primeiro pulo nas nossas pernas, aos primeiros chorinhos de cachorro novo, soubemos: Era ela sim. Liz Taylor foi para o colo. Da Ana Cris, do Rafael, da Lu, o meu... e não saiu mais. Na mesma noite, e era noite com uma linda lua crescente no céu, ela foi escolhida e chegava para ficar. Potinhos de água e de ração de Nina e Léo, cama e cobertor que a Nina olhava e torcia os bigodinhos, e Liz Taylor entrava triunfal na casa nova. Rua Manoel da Nóbrega, seu novo endereço. Com direito a uma extensão para a Otávio Nébias.
E Liz Taylor virou LUA MARIA BRANQUELA. Já ganhou brinquedos, caça ossos pela sala, rouba um pé de patufa da Ana Cris sempre que possível e na primeira oportunidade que teve arrastou uns brinquedos do quarto do Rafa para a caminha dela colocada num canto da sala.
LUA MARIA BRANQUELA é só brincadeiras, alegria e é muito beijoqueira. Pula no nariz da gente entre dentes de leite e lambidas, faz uns grunhidos gozados e late para o espelho. Bem brava. Parace querer avisar aquela "intrusa" pequetita, cor de caramelo com branco, barriga cor de rosa, e olhos verdes, de que a casa já tem dona. Late segura de si e se aproxima do espelho tentando cheirar a invasora. Desiste e corre pela sala, escorregando no piso frio da cozinha. Vem na maior velocidade e tenta subir no sofá... Ainda não consegue... Mas ela olha e pensa: "Vai dar um dia!".
Aos três meses, a criaturinha já demonstrou interesse por filmes infantis. Num final de domingo, entre pipoca e "A Era do Gelo", LUA MARIA BRANQUELA levantou-se agitada do colo da Ana Cris, fixou o olhar na tela da TV à sua frente, acompanhou alguns movimentos dos personagens do desenhos, rosnou e em seguida latiu ferozmente. Dava sua opinião sobre a saga do mamute, da preguiça e do tigre que tentam salvar um bebê-índio. Caimos na risada. Ela nem ligou. Foi para o colo do Rafa e entre uma cena e outra voltava a latir para a TV. Acho que gostou do desenho. Eu gostei.
Dorme de colo em colo, ganha coçadinhas na barriga de filhote e já mudou o olhar. Está mais alegre. Acho que sabe-se dona do nosso coração. E deve sentir todo o amor que escorre no tom de mel da nossa voz quando falamos com ela... mesmo quando a danadinha erra as folhas de jornal colocadas no começo da cozinha e elege um canto da sala como banheiro. Ela invocou com esse lugar. Limpamos, aplicamos um produto que cheira a laranjas podres mas ela não parece se importar, não. Mas, tenho fé de que vai aprender. É inteligente. Logo entenderá que só o jornal tem vez como WC.
LUA MARIA BRANQUELA. A nova filha, a nova irmãzinha, a nova participante de um desenho familiar que se faz não por convenção ou obrigação ou tradição... Se faz por amor. Apenas por amor. E amor, por aqui, não falta. É mato alto. É mato forte.
ANA CARDILHO



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CASA CHEIA [Jul. 27th, 2009|04:13 pm]
Hoje acordei como seu eu tivesse um dragão soltando fogos, fumaça e se coçando dentro do meu estômago. Sei que isso se chama gastrite. Nada de novo. Mas, como venho tomando os devidos remédios e evitando, dentro do possível, os indevidos alimentos que acordam o dragão, estranhei a indisposição logo cedo.
Nem tudo é apenas físico. Acordei com medo também. Aquela sensação de perda ou melhor, do medo da perda. Passei duas semanas com a casa cheia. Cheia de gente, de risadas, de luz. Havia um girassol na sala, havia miniaturas de carrinhos por todo canto, um soldado de madeira protegendo o meu vaso da planta "felicidade" e outro dia encontrei um dragãozinho verde, também de madeira, na pia do banheiro. Um peixe beta passou a habitar a minha cozinha e pelos quartos havia colchões, caixas, sacolas. Pedaços de uma mudança feita sem pressa, aos poucos, que começou em um dia de chuva e terminou da mesma forma, com um aguaçeiro lá fora.
Vivi duas semanas com uma alegria sem tamanho. Eu me sentia sonhando e por isso hoje quando acordei e pensei que as caixas já tinham sido levadas para a casa definitiva onde vão ficar, que as sacolas foram desfeitas e tudo já está guardado nos armários, que os poucos carrinhos que sobraram esquecidos pela casa deverão ser devolvidos ao pequeno dono e que o peixe que ainda está na minha cozinha não me pertence, senti o velho aperto do medo.
Eu e minha planta felicidade voltamos a ficar sozinhas. O soldado de madeira se foi e o dragão verde voa em outras paragens. É bem certo que ninguém foi para longe e que a proximidade do amor que existe ninguém vai quebrar. Mas, as duas semanas de casa cheia me deixaram mal acostumada. Eu bem sabia que acabaria em choro, que quando eu pegasse a caixa cheia de filmes como Monstros S.A. eu me sentiria exatamente como o personagem principal desse desenho, um monstrão azul, que cai na maior tristeza quando precisa se despedir da menininha que ele chama de "BU"... Sou chorona por natureza mas fui surpreendida pelo choro alheio. Ninguém queria ir embora. Choramos juntos. Bom sinal...sinal de que a casa foi acolhedora, que a alegria das noites de DVDs e piadinhas vai deixar saudade.
Depois do choro, me pego pensando nas injustiças: Se a situação fosse diferente ou melhor, se não fosse diferente do que se coloca como "padrão", eu não teria que ficar numa casa vazia e do outro lado da rua não teriam que ficar sem mim, sem meus mimos, minhas brincadeiras, danças e batuques pela sala.
Tá bom, é exagero dizer que ficarei numa casa vazia ou que ficarão sem mim. Nada disso. Alguns passos e estamos todos juntos de novo, brincando, dando risada, cantando e contando, durante o jantar, como foi o dia de cada um, inventando histórias, fazendo desenhos, fazendo a vida bem mais interessante com ternura, com harmonia.
Alguns passos... Esquina com esquina... Mas, de qualquer forma, há um vácuo, uma solidão e eu bem conheço a péssima sensação de abrir a porta do meu apartamento e só ver uma sala mergulhada no escuro. Entro. Vou acendendo luzes, tomo banho e saio correndo. Ainda bem que há um refúgio muito próximo, um porto seguro em braços que eu amo e que me apertam com um amor que me tira o ar e qualquer dúvida, qualquer medo.
Mas, seria bem melhor se pudesse ser diferente! Se não precisássemos ser sozinhos, dormir sozinhos, acordar sozinhos...
Questionamentos. Esse é um questionamento muito recente e não sei o que pensar sobre ele. Não sei o que é certo. Se certo há.
Talvez o certo seja mesmo essa cumplicidade sem nome, sem regra, sem "padrão". Pessoas que se amam e formam uma família por amor e não por obrigação de laços jurídicos e sociais. Família deve ser isso: dar beijinhos e risada antes de dormir e ter bons sonhos. Acordar com mais beijinhos e risadas e começar o dia com boas idéias, expectativas positivas.
Alguns passos... Dá até pra fazer um teleférico. Brincadeira, vou andando, vou correndo, vou com o coração na mão, já repleto de saudade.
Posso levar o peixe, posso levar flores e chocolate. Mas, dois carrinhos que ficaram debaixo da cama, vou guardar. Um rinoceronte de ovo Kinder, que ficou no vaso do girassol, não vou devolver. Alguns desenhos e rabiscos serão guardados com outras folhas já preenchidas. E o som das risadas e a visão de um rosto dormindo em paz, e os gestos de cumplicidade, amizade, amor, esses eu levo comigo, pra onde eu for, dentro do meu coração que tem aprendido bem mais do amor do que podia imaginar.
ANA CARDILHO
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UM ANO! PARABÉNS PARA NÓS! [Jul. 27th, 2009|01:18 pm]
Noite dessas, correndo no Ibirapuera, uma música começou a tocar no meu shuflle roxinho que levo preso ao short. A primeira reação foi mudar imediatamente para a seguinte. Isso porque a canção, "Hoje eu tô sozinha", da Ana Carolina, foi ouvida inúmeras vezes no ano passado durante o primeiro momento da "Grande Crise" que mudaria minha vida, meus conceitos, minha maneira de agir e também transformaria outras vidas próximas.
Mas, antes de mudar a música fiquei em dúvida: "Por que não ouvi-la? A crise passou, tudo se transformou e hoje os dias são azuis, tem sol lá fora, tem lua cheia sem lobisomem, tem madrugada de amor e de sonho..."
Paguei para ver. Deixei tocar... E aqui peço licença para a autora, a xará Ana, a Carolina, para reproduzir alguns trechos:
"Hoje eu tô sozinha
E não aceito conselho
Vou pintar minhas unhas
E meu cabelo de vermelho..."
Confesso que os primeiros versos trouxeram a velha conhecida dor de estômago, a angústia, a ansiedade que enfrentei em maio/junho/julho e etc do ano passado e que, até recentemente, não me deixava comer. Mas, apertei o passo, coloquei a respiração no lugar e fiz o parque me invadir, a noite me invadir. Hoje eu não tô mais sozinha. Quem eu amava e me amava está ao me lado. Nos amamos e sabemos que nosso encontro não foi uma brincadeira, não foi um momento passageiro. Não vai passar. Hoje eu ainda não pintei meus cabelos de vermelhos...eles continuam a ser pintados de castanho claro, como era a cor natural antes de meus brancos. Mas, pinto as unhas de cores fortes. Vermelho é só o básico para os dias atuais. Pinto as unhas, visto cores, pinto os olhos, assumi vaidades, não tenho vergonha de estar bem, de me sentir bonita...
"Hoje eu não vou falar mal nem bem de ninguém..."
Do ano passado para cá, tenho aprendido a julgar menos, a silenciar mais. Sempre fui visceral mas, por sobrevivência, tenho feito um exercício de "acreditar, confiar"... Isso inclui não falar e não pensar mal de ninguém. Dureza! tem gente chata demais no mundo, demais de perto. E apesar de minha "bondade" taurina, tenho alma de escorpião. Difícil confiar cegamente. Sempre tem um rabo com veneno atazanando meu pensamento que é bem criativo e encontra histórias em tudo. Mas... é um dia atrás do outro, rezando para que os chatos sejam muito felizes...de preferência bem felizes e realizados e bem amados. Porém, distantes de mim e do meu amor. Felicidade para todos, espaço para todos. O mundo é grande, lotado de gente boa e menos boa, do bem e de outros caminhos, e todos têm direito a refazer a vida, a se reiventar. Não desejo mal aos chatos, aos medíocres, aos que não sabem o que é "lealdade". Desejo que fiquem bem, mas fiquem longe. Não tenho energia para tentar ser compreensiva com quem não sabe preservar a amizade e sai atirando, falando coisas horríveis pelas costas do outro. A decepção foi um dos aspectos que tive que lidar. Sempre a evitei. Covardemente a evitei em todos os momentos em que, durante décadas, fechei os olhos para alguns problemas e defendi as pessoas que amava. Rompi amizades antigas por essas defesas, fiz discursos em praça pública, escrevi tratados e mais tratados e tinha cá comigo que certas pessoas eram eternas, que tínhamos raízes. Pena! Fui forçada a revirar a terra, a encher minha boca de terra úmida, a cuspir a terra e fui forçada a ter certeza de que essa terra era infértil, cheia de vermes de malidicências, de pensamentos tortos, de ações questionáveis. Todos podem e devem ter dúvidas, claro. Eu tenho muitas. Mas, ninguém tem o direito de não levar a dúvida ao sol e mostrá-la à pessoa certa. Mastigar a dúvida e deixá-la colada como chiclete sem sabor ao pensamento dos outros é maldade. E maldade não cabe entre amigos. Se couber, não havia amigos.
"Parei!
De pegar o carro correndo
De ligar só prá você
De entender sua família
E te compreender, êh!..."
Não parei. Transformei. Ainda pego o carro correndo, ainda tenho prioridades, e ainda tento entender quem tem dificuldade para entender. A diferença é que no ano passado eu tinha medo, questionamentos. Hoje eu tenho certezas. Não as tenho porque foram inventadas. As certezas foram trazidas pelo meu amor quando, com uma coragem fora do comum, assumiu o que sentia, o que desejava e tomou decisões. Decisões difíceis. Decisões que muita gente por aí teria pavor, sairia correndo, se esconderia atrás do muro. No ano passado, o cenário era o pior dos mundos. Impossível. A palavra impossível era até pequena para todos os sentidos e sentimentos. Quando eu tentava analisar as variantes e entender o que poderia ser feito não havia saídas. Éramos duas pessoas perdidas no meio de uma explosão nuclear. Todas as bases destruídas, todas as paredes caindo, violência psicológica e física, ira, mágoa, injustiças, pessoas forçando barras imensas para manter o que estava morto e só faltava enterrar. Hoje quando penso em tudo que passamos chego a sentir dó, pena de tudo que foi, tão doloridamente enfrentado, por todos os envolvidos. Sem exceção. Poderia ter sido mais fácil? Sim, poderia. Se as pessoas não insistissem em carregar cadáveres e aceitassem que a mudança era inevitável. Não era possível impedir o sol de nascer. E o sol nasceu, apesar de socos, pontapés, gritos, ameaças, mentiras, malidicências, desconfianças, terror psicológico, traições, decepção... E o sol não só nasceu mas está a todo vapor, a pino no céu.
"E já que eu tô só
Não sei se me levo
Ou se me acompanho
Mas é que se eu perder
Eu perco sozinha
Se eu ganhar
Aí é só eu que ganho..."
Hoje eu não estou mais sozinha... Quando eu sentia dor, dor mesmo, física, ao ouvir essa música dentro do meu carro, zanzando pela cidade, chorando pelas ruas, me perdendo, buscando caminhos, rotas alternativas, vomitando de dor, com o volume do som do carro nas alturas e cantando junto e tentando entender o que acontecia, eu realmente me via muito só. Eram perdas e mais perdas se somando. Mas, o tempo passou e hoje não estou nada só. Tenho cumplicidade, apoio, a leveza voltou, a alegria me acorda. De um ano para cá, as peças foram se encaixando e o impossível se transformou. Hoje há legitimidade para o amor, para a relação, para o desejo. Luz do dia.
O interessante é que o que foi perdido, foi. Quem não conseguiu se transformar, quem não conseguiu ser leal, quem não teve respostas e preferiu fugir, se esconder no silêncio, quem não conseguiu mudar o pensamento, vencer preconceitos, quem preferiu a mediocridade do mesmo a fazer diferente, a ser criativo, a tentar errar e errar até que houvesse algum acerto, quem não soube amar... se foi. Lei natural.
Hoje podemos celebrar um ano de encontro, de descoberta, de amor.
UM ANO!
E para quem desdenhou, para quem tentou atrapalhar, quem espalhou maldades, fez ameaças, para quem usou violências diversas, para quem nos desejou mal, nos desejou o fim, nos desejou tristezas... Hoje, nós dizemos: MUITO OBRIGADA! As adversidades, todas elas, nos fortaleceram, nos fizeram melhor e ganhamos em intensidade. Somos mesmo do "tipo intenso". Gosto disso. Diz minha escritora preferida, Lygia Fagundes Telles, que "Deus vomitará os mornos". Lembro-me que eu era uma menina de 16 anos quando a vi explicando esse trecho bíblico numa palestra na Biblioteca Municipal Mário de Andrade. Eu era só uma garotinha assustada, cabeluda e muito magra. Hoje, sou uma mulher de 44, ainda cabeluda e magra, mas com menos sustos. Hoje, acrescentaria a um dos pensamentos preferidos da minha querida escritora que: "Deus também vomita os mortos..." E que bom! É saudável, facilita a digestão, limpa os caminhos.
Que fiquem os vivos, os que conseguiram ultrapassar preconceitos e dúvidas, os amigos... Um especial muito obrigada aos amigos que nos ajudaram, ouviram nossas dúvidas, deram colo, estiveram ali, pertinho, e hoje estão aqui, incluídos nos dias de sol, nas noites de festa. A vida tem sido maravilhosa!
UM ANO de um amor que não passou e não vai passar. Quem ainda possa esperar por isso, lá vai o aviso: -Pode desistir.
Estamos de parabéns, estamos com a casa cheia de flores, cores, amor.
UM ANO! E é só o começo!
ANA CARDILHO
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TATU-LANGO-BOLINHA-LANGO [May. 14th, 2009|12:53 am]
Eu não gosto de insetos. Ou pelo menos achava que não gostava de insetos. Porém, tenho que revisar essa crença (de um ano para cá é o que mais tenho feito: revisar crenças) pela quantidade de textos dedicados a insetos neste blog: formigas, joaninhas, borboletas, siriris e hoje vou falar sobre o tatu-bolinha, o meu tatu-bolinha. Começo e lá vem o demônio da dúvida, senta-se à minha frente, tira os sapatos (é um demônio folgado), põe-se a enrolar um cigarrinho de palha (demônio mineiro, quem sabe?) e pergunta: "Mas, dona AnaCardilho, tatu-bolinha é inseto?"
Maldito, me chama de dona por ironia, solta uma baforada de fumo de corda na minha cara, dá risada, cruza as pernas e sorri. Não tem pressa. Não tem mais nada pra fazer no inferno.
Implantada a dúvida, como manda a terapeuta Beth Orru, tenho que "checar a realidade". Para isso, acendo um incenso, uma vela de sete dias com santinho do arcanjo Miguel e faço um pedido para um deus poderoso: santo google, rogai por nós.
Responde o oráculo que:
"Os tatus-bolinha não são insetos nem moluscos. São crustáceos que se adaptaram à vida em terra firma, mas necessitam viver em um ambiente úmido e escuro. Por isso, procuram as cavernas, onde podem esconder-se sob pedras ou paus. Para conservar a umidade indispensável à sua sobrevivência, eles vivem em colônias. Empilhados uns sobre os outros, protegem-se do ressecamento por evaporação. O tatu-bolinha é uma espécie que se enrola em forma de bola quando se toca nele."
Está aí. Mas, mesmo sem ser um inseto vou escrever sobre ele. Eu tenho um tatu-bolinha. Meu, só meu e de mais ninguém. Fez um ano já. UM ANO!
Meu tatu-bolinha se enrola quando eu o toco de forma, digamos assim, mais forte, mais contundente, quando dou uma bronca, quando sou chatinha, quando tenho ciúmes, quando fico possessa, tomada por tolices e mais tolices (sim, porque o que importa é estarmos, eu e meu tatu-bolinha, juntos há um ano! Isso sim é que tem valor e que importa e saber e desejar que esse UM ANO SEJA PARA SEMPRE!). Meu tatuzinho se enrola, se fecha e daí haja paciência até ele se abrir, se soltar, se desenrolar.
Diz, ainda, o santo google que tatu que se diz bolinha tem 7 placas duras no tórax. Eu bem sei... Deu trabalho perfurar as sete carapaças mas consegui e cheguei ao coração do meu tatu-bolinha, lugar onde pouquíssimos chegaram e na categoria em que estou posso dizer que fui "a primeira e única". Hoje moro lá. É aquecido, é confortável, eu tenho as chaves. Ganhei as chaves dia desses... A emoção foi tão intensa que não consegui dizer nenhuma palavra. Cheguei em casa, fiquei olhando o molho de chaves e me perguntando: "O que eu devo dizer? Devo mandar flores? Devo dar uma festa? Devo rezar e agradecer a Jorge, o padroeiro, fazer poemas, contos e crônicas? O que podemos fazer para explicar, para manifestar a emoção de ganhar as chaves do céu? Daí não fiz nada. Agi como se fosse a coisa mais comum, como se todos os dias eu ganhasse as chaves mais importantes da minha vida e, por fora, fui "blasê". Mas, só eu sei como o meu coração disparou e minha alma dançou quando recebi e guardei as chaves do porto-seguro do meu tatu que tem mil caras, nem sempre é só bolinha.
Tem dias que vira ave: beija-flor. E só quer beijar e beijar e beijar. Chega a noite, cria asas coloridas. Minha borboleta voando enlouquecida, abraçada ao meu corpo. Amanhece, perde as asas, vira formiga: precisa trabalhar e trabalhar e trabalhar e não pode atender a telefonemas, nem responder a torpedos, nem me dar atenção porque precisa trabalhar e trabalhar e trabalhar, porque tem um formigueiro para cuidar (mas se eu sumir, ai de mim! aparece um "cd vc?", básico, no meu celular). Daí, anoitece e baixa uma joaninha carente que se gruda na minha roupa e depois se faz gata, ronronando e soltando manha pela casa. Esses momentos são preciosos. Na verdade, todos são. Mesmo quando meu tatu-bolinha se transforma num lindo Lango-lango (para quem não sabe: um brinquedo que fez muito sucesso entre os anos 80 e 90 (http://www.youtube.com/watch?v=UZgLumOiqas)... vejam o vídeo, vale a pena) e só sabe dar soquinhos no ar.
De lango-lango a tatu-bolinha é um passo, ou um soco, ou uma rabada de jacaré. Fecha-te Sésamo! Perco os tesouros, tenho os navios pilhados, afundados, não sei nadar. Sofro os horrores dos náufragos.
O bom é que passa. O tatu se cansa da solidão, de ficar tenso e ensimesmado e começa a se abrir. Devagar... e eu ansiosa, querendo logo, querendo pra ontem todos os beijos desperdiçados. Ele se desenrola... mais um pouco, se estica, espreguiça, faz uns alongamentos com pouca vontade e pronto! É só um tatu, loirinho, cheio de saudade, querendo enroscar em mim os sete pares de pernas que têm. Eu deixo. Eu adoro.
Não sei se um dia vou conseguir tocar meu tatu de modo que ele não ache que precisa se defender. Não precisa. Não sou inimiga. Sou a aliada, a amiga, a amante, a namorada, a mulher... a mulher mais apaixonada que meu tatu-anjo-lango-joaninha-formiga-lango-borboleta-bolinha podia encontrar.
Encerro o texto e o demônio da dúvida, que não tinha ido embora e está aboletado no meu sofá, apaga o cigarro de palha na palma da mão e, ainda sem pressa, pergunta: "Mas, dona AnaCardilho, depois da reforma ortográfica, tatu-bolinha e lango-lango ainda têm hífen?"
Olho para meu demônio mais constante e familiar, dou-lhe um soco no meio da "fuça" e, pelo sim, pelo não, decido que amanhã mesmo, sem falta, logo cedo, hei de consultar um enviado do deus gramatical à Terra: santo Paquale (www.professorpasquale.com.br)
Mas, amanhã somente... Meu tatu, hoje nada bolinha, já adormeceu e eu preciso fazer o mesmo porque amanhã vamos viver um DIA DELICIOSO... Um dia a mais para o NOSSO AMOR.
Ana Cardilho 13/05/2009
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FORMIGA II, A MISSÃO [Apr. 9th, 2009|01:59 pm]
Desta vez, a formiga não é ruiva. Nem loira. Tem um tom que se aproxima do castanho e é da família das formigas desesperadas. Dessas que andam com as mãos na cabeça, perguntando: "O que eu fiz? Pra onde eu vou?", segundo Lygia Fagundes Telles.
Desta vez, a formiga não está no dilema do rejunte, andando de um lado para o outro no mesmo azulejo da cozinha. A formiga castanha mora no teclado do computador e aparece entre as teclas. Foge dos meus dedos, se esconde nos espaços, deve ter um mundo lá embaixo do teclado...um submundo, uma subcidade, realidade virtual. Como o vão que existe embaixo da avenida Paulista: cabe outra cidade naqueles porões que eu imagino escuros, cemitérios da história.
Observo minha formiga de estimação. Sim, porque já me apeguei a ela. No meu delírio diário, acredito que há uma mensagem. O que ela quer me dizer pulando de tecla em tecla? Qual história quer me contar? Será que ela sabe o que faz passeando entre as letras como se tentasse formar palvras ou é apenas uma formiga analfabeta treinando para a São Silvestre das formigas que moram em teclados de computador?
Há ou não há mensagem nos passos bêbados desse inseto? Podemos nos comunicar?
Seria fácil esmagá-la, acabar com as andanças. Posso esperar que ela suba à letra D, por exemplo e acabar com seu corpo castanho com meu dedo indicador esquerdo. Ou posso matá-la quando ela estiver cochilando sobre a letra K, usando meu dedo médio direito. Posso soprá-la do teclado e mandá-la mesa à fora. Ou posso tentar ignorá-la enquanto ela se reproduz e mantém um formigueiro em crescimento dentro do teclado do computador.
Escolho deixá-la viva. Isso me faz arrogante, deusa das formigas windows live. Sou poderosa. E ela ri... ri da minha cara de deusa, curva-se e mente preces como se tivesse fé...Mas, é puro deboche. Formigas não mantêm deuses e sim disciplina e senso de sobrevivência.
Ela finge que reza, eu finjo que detenho algum poder. Imóvel, com as mãos sobre o teclado espero.... ela se aproxima, sobe na minha pele e parece estranhar a consistência. Será que esperava uma pele mais dura? Afunda as patinhas, desiste. Prefere a rigidez do plástico do teclado, a certeza da madeira na mesa, qualquer coisa onde possa sentir que "pisa no chão".
Vou criá-la. Ou melhor, fazer de conta que me esqueci, sem querer, de pedaços de bolacha e restos de chocolate sobre a mesa. Cínica, ela não vai acreditar. Mas, vai comer o que eu deixar por aqui.
Em troca, deve haver uma mensagem. Junto letras, palavras, sentidos.
A formiga do passado, a ruiva do rejunte, ganhou o mundo. Conseguiu vencer seus limites pessoais e hoje está livre. Anda por onde bem entende...
A de hoje, que é castanha, me desafia e grita: "Se até uma formiga sabe contar uma história, pode contar uma hisória e se dispõe a morar no teclado do computador, por que você, AnaCardilho, não pode, com seus milhões de neurônios?
Posso sim. E nem preciso virar inseto.
Só preciso começar: "Era uma vez..."
ANA CARDILHO 09/04/2009
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MAIS DA FORMIGA
Voltei mais cedo do almoço e peguei um flagrante:
Você não faz idéia do que eu vi.
Juro que vi.
Juro que é sério e não ficção produzida pelo meu cérebro com resquícios, ainda, de drogas lícitas e de vinho tinto chileno.
Eu vi...
Minha forminguinha de estimação entrou correndo teclado abaixo. E ela levava, nas costas, outra formiguinha...porém mais clara... Quase albina? Quase loira?
Foi rápido. Quando ela percebeu que eu olhava, apertou o passo nas quatro patinhas e fugiu, sumiu debaixo da tecla G.
Agora estou aqui pensando...
A outra formiga seria uma namorada cansada que ela carregava nas costas para colocar para dormir depois de terem feito amor deliciosamente?
Ou seria uma presa, pega recentemente, que ela levava para casa, para assar para todo o resto do formigueiro?
Ou seria uma formiga idosa (não deu pra ver se havia rugas), que caiu na rua e a minha formiguinha de estimação a salvava das garras de algum tamanduá? Sim, porque por estas bandas da Sto Amaro eu bem acredito que devam existir uns tamanduás perdidos do tempos dos Bandeirantes.
Qual terá sido o destino da formiga branca?
Em silêncio, aguardo. Quem sabe ela sai do teclado ainda com a albina nas costas e decifra o mistério?
Vou esperar...
ANACARDILHO/09/04/2009
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OITO HORAS! [Apr. 1st, 2009|03:24 pm]
Para Soraya Rodrigues

O que fazer para encontrar um amigo distante? Essa pergunta eu já fiz no blog e ela foi devidamente respondida com "jantar, flores, vinho tinto e boa conversa".
Mas, o que fazer para encontrar uma amiga que ainda não se conhece?
Como ela seria?
Olhos castanhos? Azuis ou verdes? Vai chegar ao encontro com óculos escuros, lentes, sombra e lápis nos olhos ou rosto limpo? Será que ela usa batom?
A nova e desconhecida amiga pinta as unhas? Cores fortes ou discretas? Vem a cavalo, de carro ou de táxi?
Qual será o signo dela? E no chinês?
Ela vai beber ou é abstêmia? Vamos almoçar ou apenas beliscar?
Pouco sabia sobre a nova amiga. Algo como: é casada, tem uma filha de dois anos, começou a correr e treina no Ibirapuera.
Mais nada sabia. Nem idade, nem tom da pele, nem gosto musical.
Confesso que me sentia um pouco nervosa. Sou do reino dos tímidos e isso é agravado pelo desejo de acertar, de ser aceita, de não desfocar o tom. A nova amiga vinha com a chancela do meu novo amor... Uma pessoa do passado do meu amor, alguém que se eu soubesse que existia, eu teria mandado sinais de fumaça pedindo ajuda em outros tempos, nos tempos mais difíceis.
Até que ela chegou: era um sorriso limpo, aberto. Sorria como só os sinceros o fazem, de boca aberta, de alma aberta, acolhendo os medos alheios com generosidade. Abraçou-me forte e eu gostei. Gosto das pessoas que pulam apesar da altura e confiam que vão voar e não se esborrachar lá embaixo.
A nova amiga trazia a voz clara. Dos que dizem tudo, não estão na vida para dissimular, não se furtam das palavras por insegurança.
Trazia as mãos repletas de presentes: compreensão, carinho com meu amor, paciência com minha existência.
Tipo de gente que olha bem nos olhos da gente e foi logo avisando: se eu fizer meu amor feliz terei nela uma amiga. Caso contrário.... Arrepio na espinha!
Acredito que terei, então, uma amiga. Porque meu maior desejo é fazer meu amor, e a mim mesma, feliz.
Em pouco tempo, era já uma velha amiga.
Sinceridade derramada sobre a mesa ao lado das caipirinhas de frutas e saquê. Sinceridade demais nunca mancha a toalha e nem o coração da gente. Alivia, oferece segurança.
Em pouco tempo, estava à-vontade, contando segredos, entregando fragilidades, fazendo planos.
Tenho ainda muito para conhecer, há ainda uma estrada firme para ser trilhada com trocas e cumplicidade. Mas, o que pude perceber me deixou encantada.
OITO HORAS! Esse foi o tempo do encontro. Nós três quase fomos expulsas do restaurante que virou o turno de funcionários, de bifê, e lá estávamos as três, falando, falando e falando....
Nunca tive um encontro que durasse oito horas diretas, sem parar, com alguém que não conhecia.
Considero uma bênção, junção de estrelas, anjos sorrindo...
Bem-vinda nova já velha amiga!
Lembrando que o número oito representa o infinito... Se o primeiro encontro durou oito horas, penso que podemos esperar o infinito entre nós.
ANA CARDILHO
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OS PÉS [Apr. 1st, 2009|03:23 pm]
Sobraram os pés. Ou melhor, a imagem deles. Estavam descalços, deitados quase um sobre o outro e ambos sobre o lençol lilás. Unhas feitas, sem esmalte. Rentes à carne. Eu olhava aqueles pés calados que talvez sonhassem e o sentimento de ternura era avassalador. Algo quente. Como se quanto mais eu os olhasse, quanto mais eu guardasse do contorno dos dedos, do formato das unhas e de alguma mancha na pele, mais eu sufocaria com algo que podia chamar de ternura. Uma enjoativa ternura. Física. Como se, às pressas, fosse possível engolir muitas, repetidas colheradas de doce de leite. Puro açúcar. Olhar aqueles pés beirava o enjôo. Mas era tudo que eu podia ou deveria ver. Não era mais noite. Nem madrugada.
A janela fechada não continha o que começava a nascer de luz lá fora. Logo seria dia, logo chegariam os sons da rua. Obras vizinhas, crianças rumo à escola, cachorros arrastando os donos, alguém que freia em cima da faixa de pedestre, alguém buzina. Impaciência. Quanto mais do dia, quanto mais dos pés, mais da minha impaciência. Quase não havia tempo e nada sobraria. A não ser aquela imagem dos pés quietos, adormecidos. Seria perfeito se, de repente, o dia desistisse de avançar e num milagre voltasse a ser a noite anterior.
Na noite anterior os pés estavam envoltos, protegidos, por botas de festa e inventavam passos numa pista de dança. Eles mal apareciam sob feixes coloridos cruzando corpos apertados entre uma música e outra. Avançando, cambaleando, eles pisavam em outros pés também calçados para dançar. Mas os meus gostavam do contato, contê-los, protegê-los entre saltos e paradas fazia a vocação da noite. Passos de dança de índio. Batida eletrônica, fumaça no ar. Corpos pulsando, integrados no mesmo ritmo. Catarse coletiva. Meus pés doíam mas não iriam parar enquanto os outros não desejassem o final da música, da noite, da dança encenada entre beijos. Pés e bocas. Não eram mais dois corpos. Era um terceiro. Era único e teria vida curta. Vida frágil. Sombra refletida numa pista de dança.
Antes ainda, andando para trás, estavam eles entrelaçados em outros pés. Os meus. E os quatro debaixo do lençol lilás. Tinham estado escorregadios, tensos, crispados, tinham chutado o ar e agora apenas respiravam. Poderiam ser massageados, cuidados com cremes e mãos quentes. Mas, naquele instante só deveriam existir colados uns aos outros, obedecendo o mesmo pulso. Um prazer dividido em dois, ramificado e exposto nas solas dos pés, numa veia pulsante.
Antes mais ainda, chegaram envoltos em meias de algodão e tênis. Corriam, pisavam duro o chão de terra, espalhavam poeira e pedras pelo caminho. Sentiam dor a cada passada mas teimosos não iriam parar. Prosseguiam a corrida. Prosseguiam a caçada, a perseguição dos outros pés que iam por perto. Fugiam ou não fugiam. Era dúbia a mensagem. Coreografia de um desejo. Parece que sim, talvez seja um não. O sim venceu em vários momentos. Os pés estiveram ali, à mão. Entravam pisando sobressaltos e urgências. Era preciso descalçá-los depressa. Pouco tempo entre a vida e a morte de uma tarde, de algumas horas inventadas. Pouco tempo para que rolassem entre os outros pés. Sempre gelados. Sempre desejando calor, quentura, lava derretida.
O sim andava por ali, media os passos da sala ao quarto e de vez em quando estacionava na cozinha. Pizza fria, vinho branco, batata e sal. Era bom o sim. Inteiro e pleno. Se fazia acreditar, espalhava promessas pela casa, ligava o som, fechava as cortinas e puxava o edredom. Simpático o sim, se fazia necessário e começava a inventar uma rotina, certa ordem nas horas, nas coisas, na vida de alguém. Pela certeza de um sim, toda entrega, todo o tempo, expectativas.
Mas havia amanhecido. Em poucas horas aqueles pés que ressonavam seriam apenas uma imagem, quadro posto. Em poucas horas eles acordariam, agitados. Em pouco tempo estariam banhados, protegidos por meias de lã, distantes. Iriam embora os pés alados. Voltariam a ser apenas pés amarrados a outras histórias. Toda a intimidade perdida, derramada e endurecida no tapete da sala.

Sem ação. Nada do que eu fizesse ou falasse poderia segurar o dia, a fuga, a perda. Minhas mãos vazias, meus pés errantes. Tentei argumentar mas as palavras já nasciam mortas. Os pés que agorinha se enroscavam pela última vez já iam longe. Sumiam. Sem pegadas. Nada de pistas. Quem prometeu o quê?

Marquei passo no dia que amanheceu e trouxe uma angústia velha. Sempre o mesmo chute que pega parte do fígado, se espalha pela boca do estômago e me deixa com o corpo torcido. Olho meus pés. Prometo que desta vez eles irão longe, que vou levá-los para caminhos distantes e impossíveis de serem rastreados. Estão sem pele, são nervos expostos. Ainda podem correr mas as pisadas não deixam pegadas, são pés vazios, sem fé. Derramaram-se no que podiam ter de crença em si e nos outros. Como era esperado, os pés de criança levaram pra longe o corpo adulto, transbordante de medo. Com o medo não há passada possível. Ele faz mancar, ele produz mancadas, ele entende tudo de arrastar correntes.

Venceu o medo. Fiquei no vazio. Casa vazia, vida vazia. Caminhar pra onde? Caminhar pra quê? Foram muitos chutes no ar. Chutei estrelas, pisei em promessas feitas. Amassei no chão, com o salto das sandálias, o desejo que ainda insistia em dar sinais de vida. Achei a cura, achei que sim. Com passos pequenos, meio sem saber por onde ia, um caminho foi se desenhando. Mas, havia a saudade e sobravam as perguntas: E se desse certo? E se fosse possível? Nesse pé estava quando aqueles pés acharam o caminho de volta. Primeiro bateram de leve na minha porta. Não abri. Uma massa de mágoa havia escondido as chaves. Sentei-me na sala, emburrada. Não vou abrir, avisei. Pode ir embora. Mas, os pés que voltavam estavam diferentes. Não produziam mais um som de mancos, não pareciam ter dúvidas de onde e como pisar. Não acreditei. Quem acreditaria nisso? Desliguei o som e fui dormir. Não vou abrir a porta, avisei de novo. Sumam, pedi... no fundo desejando que eles não me atendessem. Não atenderam. Da batida educada na porta evoluiram para um santo chute na porta de entrada. E assim invadiram a casa. Sabiam o caminho até a cama, sabiam os passos certos. Subiram nos meus lençóis calçados mesmo. Subiram no meu corpo com o salto fino, agulhas na jugular. E desafiaram: diga, agora, que não quer? O silêncio foi meu sim. E os pés se acalmaram, descalçaram, e ali estavam, enrolados aos meus. Uns pés de pele translúcida, gelados, cansados da viagem de volta. Querendo terão morada certa. Massagem sempre. Dança de compasso ritmado. Querendo podemos envelhecer juntos: quatro pés deixando pegadas em trilhas de corridas, pisando em flores, caminhando à-beira mar, bordando histórias. Querendo não há limites nem pontes que não possam ser vencidas com passos firmes. Decisões. Querendo, os quatro pés podem andar mundo à-fora e inventar um mundo bem melhor, um mundo onde o amor é possível, vale por si só e pode ser para sempre.
Ana Cardilho
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DIA DA MENTIRA [Apr. 1st, 2009|03:22 pm]
Primeiro de abril. Dizem que é o dia da mentira...
Eu prefiro as verdades. mesmo que doam. Que doam muito! Ainda assim prefiro as verdades. Todas: as pastosas, as muito líquidas, as que empedram na boca da gente, as que entram debaixo da cama, as que acordam com fome no meio da madrugada, as que se escondem pelas nossas costas.
Que venham as verdades. Sempre.
De verdade, neste momento da vida profissional sei o que não quero: não quero mais que o trabalho seja um martírio, um sofrimento, que possa me causar ataque de pânico, que me deixe doente. O trabalho, de verdade, deve ser leve, deve ser feito com dedicação e não com medo; com empenho e não como uma obrigação que nos deixa tristes.
De verdade, neste momento da vida pessoal sei o que quero: quero amor de verdade, todo dia e com a fé de que pode durar, pode ser pra sempre, apesar de todas as correções de rota que as pessoas precisam fazer. O amor em si, e apenas ele, de verdade não se aguenta. Cada um entra numa relação com verdades pessoais, crenças construídas ao longo de anos. Adolescentes que não somos, temos história de vida, nos calejamos, nos decepcionamos, acertamos em alguns aspectos e certamente erramos em muitos outros.
Eu, falando de verdade, tento acertar. Mas sei que erro bem mais do que consigo ao contrário. Subo, desço, escalo minhas paredes mais difíceis, persigo caminhos, reivento rotas e ainda assim erro: no tom, no jeito, na hora, por existir, por sentir, por respirar. Parece que vou morrer errando, mesmo tendo, de verdade, dentro de mim um genuíno desejo de acertar.
Não acerto caminhos... erro as mãos: diabos de esquerda e direita!
Não acerto a hora de dizer certas coisas e elas se tornam, em segundos, erradas coisas.
Não acerto o compasso do meu coração que de uns tempos pra cá resolveu bater bem mais acelerado e preciso contê-lo à base de atenol.
Não acerto as palavras... logo eu! Eu e minha arrogância linguística! Comi dicionários a vida toda, triturei livros e mais livros e tenho todos, picadinhos, dentro da minha cabeça.... amo as palavras, os sentidos, as duplicidades, os jogos do que elas querem dizer e não dizem e do que elas dizem e, no fim, nada dissseram. Eu e minha paixão literária: Capitus que somos, mistérios de todo o sempre... e ainda assim, erro as palavras.
Quero acertar? A cada segundo, mas quando me ouço as palavras estão invertidas, o tom desafinado. Silenciar seria bem melhor. Mas, sou uma viciada em palavras, dependente química de léxicos e contextos. Não sei silenciar.
De verdade, neste momento da vida, de um modo geral: sei o que não quero e sei o que quero. Pode parecer pouco mas já é muito. Passei anos e anos sem saber a diferença entre sim e não e muitas vezes cai do cavalo chamado "talvez".
Perdi dinheiro, perdi poder, perdi convicções.
Perdi amigos quando descobri falta de lealdade; perdi amores quando descobri rotinas mornas; perdi a mim mesma quando me vi sozinha, enfiada numa casa sem vida.
Hoje, dia primeiro de abril, dia da mentira, sei que estou bem perto da verdade e, de verdade, ela é incapturável. Peixe lesguento... a gente toca e a verdade sai rindo, rebolando a cauda lisa e colorida e desafiando: "Vem, bocó! me pega?!"
Eu tento. Tento pegar a verdade, abrir sua barriga, descobrir como ela é por dentro, decifrar suas vísceras. Mas, tenho visto que elas são muitas.... Muitos peixes com os mesmos olhos e óleos pelo corpo. Verdades aos milhares, verdades aos borbotões, verdades de cada um.
Não quero conflitos entre as minhas e as alheias. Portanto, deixo aqui um registro: acho que vou me cansar de perseguir a verdade se verdade, de verdade, não há...
Mentira! É primeiro de Abril!
ANACARDILHO
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O TODO DO TEMPO [Mar. 23rd, 2009|11:40 am]
23 de março de 2009. O ano já começou? Tenho os dias suspensos, as horas disfarçadas. Nem passam, não avançam. Paradas estão. Acabei de romper a rolha do champanhe do ano novo, acabei de sair do mar de Búzios, acabei de saber que o trabalho que gostava de fazer não existe mais, acabei de saber que tudo muda o tempo todo, o todo do tempo, o tempo todo.
Meu olho se ilude. Olha, gosta e para na imagem. Acha que pode contar com a eternidade mas eternidade não há. Caem os cabelos, fios longos e loiros no meu travesseio. Ficam os perfumes no ar, emolduram ausências sentidas, doídas. E tudo muda a cada segundo. Mesmo que eu não veja segundo algum. Não uso relógio. Será esse o problema? Devo comprar um? Devo prestar atenção às horas, aos dias e tentar mudar um pouco também?
Mudo a sala. Troco os móveis de lugar e coloco o sofá onde eu imaginei que sofá haveria no primeiro dia em que entrei neste apartamento, antes mesmo dele ser meu. Estranho a sala. Demorei oito anos para impor minha vontade a mim mesma e colocar o sofá no lado da sala que todos dizem ter nascido para a mesa de jantar. Mas eu não quero. Posso não querer fazer do jeito que todos fazem? De quem é a sala, de quem é o sofá? Quem se senta na mesa de jantar?
Rearranjo os móveis. Não sei se gosto ou se apenas acho estranho. Deixo lá. Talvez me acostume ou mude tudo de novo.
Começo a semana a um mês de completar 44 anos no dia de Salve Jorge!
Expectativas... Minha amiga vai sair da UTI e vai para o quarto? Vai ter saúde? Meu novo trabalho vai me chamar? Será divertido, trará crescimento profissional? Vou conseguir escrever o segundo romance que explode na minha cabeça e terminar aquele que ficou pela metade no papel? Vou conseguiu me expor, falar, buscar, cavar, lutar pelo meu lugar entre letras e palavras ou vou morrer avestruz?
Entro em casa. Café tomado. O pássaro segunda-feira bate as asas na janela fechada. Há sol lá fora, há céu azul. Abro tudo... que entre o ar.
Saio à cata de roupas, restos do final de semana. Pelo caminho, recolho garrafas vazias de água com gás e acho um sorriso sobre a minha cama. Vasculho-a e encontro pedaços de orgasmos, prazer tão intenso! No outro quarto, agora mais vazio, há fios de cabelo. Longos, loiros, enrolados em sonhos que gosto de cultivar a pão-de-ló. Tenho a garganta apertada e a cada resto de beijo que encontro pela casa, vontade de chorar. Saudade, desejo de que fosse pra sempre. O que pra sempre? Tudo. O final de semana, as risadas, a leveza, a conversa fluída e leve, o sono solto, os encaixes perfeitos, os segredos sussurrados ao pé do ouvido, as mãos fortes segurado-me no lugar exato. "Não pára!"... Não paro...desço em espiral, alcanço velocidade alucinada e quando olho não vejo meu anjo. Ficou aonde? Parou pra abastecer? Parou no sinal vermelho, em qual esquina? Acelero, pego contramão, nada importa. Só quero achar meu anjo de volta, ficar sob suas asas enquanto seus dedos conduzem minha boca recém-acordada ao mamilo esquerdo. Perfeito. Momento perfeito, pintura que cobre a tela da minha lembrança mais querida. Gangorras. Subiu? Aviso, vai descer. Não quero descer. Não posso ficar cá em cima? Aqui venta bem, aqui tem sol, tem prazer e pele macia. Não quero descer, não quero meus pés no chão, não quero reconhecer limites e dificuldades. Só o sol, só meu sol nos meus cabelos, dentro de mim.
Guardei as roupas, joguei as garrafas vazias, guardei o jornal de hoje que não quero ler. Estou fora do ar, há um mês de envelhecer um pouco mais. 44 anos.
O que virá?
Dizem as cartas que as mudanças são para melhor, que está tudo à-beira de acontecer.
A esta altura do ano passado, minha vida estava a um passo de ser virada e revirada, rearranjada, passada a limpo, digitada, editada, reeditada, revisada. E eu nem sabia... Provavelmente a um mês do meu aniversário, 23 de abril, eu nem desconfiava de tudo que estava sendo armado para o ano de 2008. Os ventos tomavam fôlego, as nuvens se concentravam e eu corria distraída pelo parque, ouvindo Frank Sinatra, sem nem perceber que já estava pega por mãos alheias, capturada por olhos pequenos e fundos que não deixavam dúvida: queriam meu coração.
Entreguei. Armas ao chão. Eu ao chão. Nem é tão duro. É bom também.
A um mês de vestir as roupas e as armas de Jorge, cato expectativas como se andasse à beira-mar escolhendo conchas para um colar. Pulseira quem sabe? Tornozeleira.
Os pés do meu amor... pés de criança. Mas, que hoje sabem bem o caminho que desejam trilhar. Pés que não caem do salto.
Eu salto. Febre de vertigem... Me pega no ar? No seu abraço eu tudo posso!
ANA CARDILHO
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ABRINDO A JANELA, ESPANTANDO OS CORVOS [Feb. 19th, 2009|06:32 pm]
Marcar um café com um amigo do qual só conhecemos as idéias pode ser uma aventura fascinante.
Final de tarde, seis horas. Hora da Ave Maria, cheguei ao café proposto pelo amigo, até então, virtual. Lugar simpático onde tentei almoçar tempos atrás mas desisti porque a fila de espera era tamanha. Nessa tarde tive sorte. Havia mesas de sobra. Olhei ao redor, avisei ao garçom que esperava alguém e pedi uma água com gás, gelo e limão. Ninguém sentado sozinho, deduzi que eu estava adiantada para o encontro.
Para reconhecer meu interlocutor, eu tinha uma vantagem. Sabia, por foto, como era meu amigo invisível. Um homem de cabelos grisalhos, sorriso aberto e olhos ternos. Desde a primeira vez que o vi, na fotografia de uma revista, tive a impressão de que ele me lembrava outro amigo, um mais antigo, dos meus tempos de menina. Os dois magros, de pernas longas, dedos das mãos longelíneos, voz grave e suave de cantor de MPB. Como era possível saber isso apenas tendo visto uma foto, três por quatro, numa revista? Ah, mistérios! Não sei explicar mas quando o amigo virtual chegou, com vento nos cabelos, capacete da moto debaixo do braço, não tive dúvida: o amigo poeta do passado poderia ser irmão do amigo que agora deixava de ser virtual.
Café, torta doce para fazer as pazes com Deus, como ele definiu a iguaria, e desce conversa, descem idéias, projetos, confissões, sonhos e medos.
Chegou a noite, de mansinho, sem fazer barulho, e trouxe perfumes da rua: cigarros eventuais, uma dama da noite mais distante, óleo diesel, cheiro de uma chuva que não caiu e se espalhou por outras bandas. Quando nos despedimos eu sabia: estava contaminada. Idéias pegam, brotam, fincam raízes e vão germinando. Fui para casa com aquela sensação de natal: um amigo é sempre um presente precioso e uma conversa num café, no final de uma tarde de verão, pode desenhar um quadro daqueles que a gente pega, coloca na parede principal da casa e não cansa de olhar.
ANACARDILHO 19/02/2009
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ANO NOVO [Dec. 9th, 2008|06:19 pm]
9 de dezembro. O ano de 2008 acaba de acabar. Pelo menos para mim. Hoje vou tomar banho quente e demorado, perfumar a casa, usar roupa colorida e abrir um espumante. Hoje eu vou comemorar o meu ano novo. Vou pular, dançar, abraçar, beijar, cantar e saudar o ano novo.
2009 vai ser muito melhor. Tem de ser! 2008 não deixará saudade. Será sempre lembrado pela intensidade, pela fila de acontecimentos que, de repente, viraram minha vida de ponta cabeça mas não deixará saudade. Saudade eu quero ter de 2009 que será o ano da realização, do concreto, de viver intensamente e deliciosamente tudo que deu certo. E deu certo porque tiveram coragem, ousadia e estão me ensinado as lições da fé no outro. Confesso que, pelo meu lado escorpião, custo a crer e quando acredito ainda assim desafino... Mas, hoje está tudo posto. O que eu desejava e duvidava que acontecesse é real. Aconteceu. Fizeram acontecer. Tomaram a decisão e não há mais oscilações. Hoje eu vou brindar meu ano novo. É lua nova. É vida nova!
...
Será que tudo começou num domingo, quando recebi na minha casa uma pessoa assustada que vestia uma blusa azul claro, de lã, cabelos meio molhados, perfumada, e que deixava no ar muitas perguntas? Eu olhei e não sabia o que fazer... não sabia o que dizer, o que poderiam querer de mim, o que eu poderia querer. O que nós deveríamos temer?
Será que tudo começou num sábado, dentro do carro, quando distraída recebi um toque de mão na minha mão esquerda, sobre meu anel, e isso provocou uma mescla de sensações incríveis que teimam em não me abandonar, não me dão trégua, e me arrastam pelos cabelos?
Será que tudo começou numa sexta-feira, entre pizza, vinho tinto, amigos e conversas entrecortadas por desenhos de pés e contornos de almas?
Será que tudo começou quando perdemos o chão, as roupas caíram, as máscaras caíram e nos vimos entregues. A pele nua, a alma descoberta e viva, pulsando, e avisando: "Quero mais!".
Será que tudo começou num domingo sem data, corrida no parque, por caminhos e ritmos diferentes? Ali havia um abismo intransponível e nem mesmo minha mente de ficcionista arriscaria um enredo tão peculiar.
Será que tudo começou num sábado perdido há anos, durante uma feijoada e minha indigestão com o momento, minha necessidade de me afastar, fugir, sair correndo?
Será que tudo começou ontem, no último beijo na porta do carro?
Será que tudo começa agora? No primeiro beijo da noite deste 9 de dezembro de 2008?
Será que tudo começa quando e de que jeito?
Só começa. Começa sempre. Começa agora e depois começa de novo e de novo e de novo...
Nunca vai passar...
ANA CARDILHO
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NOITE OU DIA? [Oct. 23rd, 2008|07:29 pm]
(leiam também:
http://sistersteel.livejournal.com
http://mariliacoutinho.livejournal.com
http://fermatacafe.blogspot.com
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Uma chuva forte se anuncia e não cai.
Trovões parecem que vão estourar e desistem do som.
Há uma água parada no ar.
Há eletricidade congelada no ar.
Alguns pássaros que voltavam para casa foram pegos de surpresa e ficaram parados no ar. As asas abertas, no meio do movimento, o bico aberto no meio do pio, os olhos vidrados no meio do olhar.
Tudo paralisado.
Invoco mestre Liu Pai Lin. De um movimento ao outro, o tai chi sempre fica parado no ar. Um movimento não acaba e outro começa. Eles se mesclam e, em algum momento, são um só.
Misturas. Identidades sobrepostas.
Eu estou parada no ar.
Na minha frente, na redação da Tv Cultura, um sinal luminoso avisa 'NO AR. NÃO ENTRE'. Mero aviso para barrar desavisados no estúdio quando o jornal, lá dentro, corre ao vivo.
Acho graça. Mórbida graça. Falando sobre ficar parada no ar levanto os olhos e só hoje, e só neste instante, reparo no aviso luminoso.
No ar. Não entre.
Não entro. Pelo menos não deveria.
A vida que segue seu curso tranquilo e bem posto corre ao vivo em estúdios diversos e alheios.
Esse tem sido um erro repetitivo:
Se está no ar, não posso entrar. Ninguém pode. Ninguém deve. Penetra em festa alheia. Persona non grata.
Ao meu lado esquerdo, um gigante quadro na parede reflete um anoitecer, em preto e branco, da Estação da Luz. As torres, o pedaço arredondado, os arcos, o relógio, réplica do relógio londrino, marca 6 e 20. Falei que era um anoitecer... Mas, bem pode ser um amanhecer de inverno ou com horário de verão.
Os ponteiros marcando 6 e 20 não me contam se é dia ou noite. Pelas plataformas vazias seria um amanhecer? Ou um anoitecer? Não consigo decifrar. Enigma.
A hora do relógio está no ar. As nuvens, em tons de cinza, estão no ar. Não há trens parados ou chegando nas plataformas.
Apelo ao silêncio da foto e arrisco: silêncio em excesso, é amanhecer. Lusco-fusco tem som próprio.
Aguardo. Qualquer dia anoitece. Qualquer dia amanhece.
Enquanto isso um relógio parado em mim marca um horário que nasceu sob o signo da Esfinge. Eu sabia: 'Devora-me ou decifro-te' era mais que um jogo de palavras.
Não devorei.
Decifrada estou.
Eu e a Estação da Luz, entre qualquer coisa que caiba das seis e vinte da manhã às seis e vinte da tarde, estamos paradas no ar. Esperamos um trem passar...
ANACARDILHO 23/10/2008
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TEXTO-DESCARREGO [Oct. 16th, 2008|04:35 pm]
O tempo fechou. Daqui ouço trovões se acomodando. Se chover vou correr na chuva. Ando bem precisada de um banho de chuva, descarrego completo.
Coisas esquisitas deram para acontecer. Lua cheia.
Domingo à noite, enquanto comemorava o aniversário das gêmeas de minha querida amiga Denise Silveira, riscaram meu carro. Não foi um risquinho. Fizeram com gosto, fundo. Três riscos. Cicatriz. Não entendo... Não briguei com ninguém no trânsito, não fechei ninguém, estava estacionada numa rua tranquila, longe da pizzaria, em frente a um prédio, não fechei a garagem do prédio, não estava em vaga proibida. Onde parei não atrapalhava ninguém. Mas, parece que me enganei. Atrapalhei muito alguém que se encheu de ódio e foi lá, riscar o carro. Do nada. De graça. Senti tanta raiva que desejei que a mão que desenhou os riscos se parta. É, eu sei... péssima a vingança, a raiva compartilhada. Mas, sou humana. Na hora foi o que desejei.
Terça-feira, aos 45 minutos de corrida um enjôo feroz. Treino encerrado, hidratei com água de coco e quando cheguei em casa já sentia calafrios. Evoluiu para uma "virose", digamos... Vômitos, diarréia, dores pelo corpo, calafrios, febre.
Fiquei na cama fazendo o que devia. Soro e remédios básicos para essas coisas, além de suspender a alimentação.
No meio da febre e dos calafrios ouço um som estranho na área de serviço. Uma água de esgoto voltava pelo ralo que não a podia conter. Sujeira total. Chorando fui limpar a sujeira alheia. Entupimentos. Ralos que não seguram a pressão do alheio. Com luvas amarelas, panos de chão que coloquei no lixo depois, e muita água sanitária arrumei o estrago. Deixei as coisas "limpas". Ou tentei.
Quinta-feira, o microondas parou. Não parece queimado. A luz acende quando é aberto e o visor marca 9:00. Apenas não funciona. Não liga.
Nove horas... O horário não sai. Já liguei e desliguei e lá está: nove horas. O que será que aconteceu ou vai acontecer às nove horas?
Já tomei meu banho com sal grosso e mais todos os temperos que encontrei na cozinha.
Mas, seria bem bem um banho de chuva. Uma corrida na chuva, chutando poças de água, chutando para bem longe essa energia ruim que anda no ar.
Como nasci no dia 23 de abril e sou protegida de São Jorge e como quem governa a chuva e as águas doces é Mamãe Oxum, faço aqui um sincretismo musical e deixo minha oração:
" Eu estou vestida com as roupas e as armas de Jorge.
Para que meus inimigos tenham pés e não me alcancem, tenham mãos e não me peguem, tenham olhos e não me enxerguem, e nem mesmo um pensamento eles possam ter para me fazerem mal...
Ê areia do mar que o céu serena
Ê areia do mar que o céu serenou
Na areia do mar mar é areia
Maré cheia ê mar marejou
Salve Jorge!
Colo, Mamãe Oxum!
ANA CARDILHO 16/10/2008
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13 de Outubro [Oct. 13th, 2008|04:37 pm]
Sábado passado, zanzando pelo bairro Butantã, descobri uma rua que se chama "Reação".
Tive vontade de parar o carro, descer e me sentar na rua da Reação até me contaminar plenamente de alguma reação e, assim, começar a reagir e a agir.
Tenho um blá, blá, blá pessoal onde costumo dizer que se você não decide sua vida, alguém decide por você. Muito bem, palmas pra minha hipocrisia.
Perdi as rédeas da minha faz algum tempo e fico posando de boa moça dona da própria vida. Mentira. Ando sem reação. Virei uma experiente expectante, sempre à espera de algo.
Será que vai chover? Será que vai fazer sol?
Enquanto o tempo passa, enquanto espero o inesperado, nublo. Nada de raios e trovões. Nada tão barulhento assim. Apenas nublo.
Daí minha esperança na rua da Reação. Poderia abrir ali uma cadeira dessas de praia e ficar sentada, olhando os carros, as pessoas, esperando a noite chegar.
O que posso aprender na rua da Reação? Que não tenho paciência? Que não sei esperar? Ou que saturei o item "espera" e por isso quero ações e reações imediatas?
Pode ser. Deve ser. Neste ano do imponderável eu já não duvido de mais nada.
Pode ser que eu cruze qualquer dia, por esta cidade maluca, uma rua chamada Tranquilidade. Nela posso até morar. Armo uma barraca, compro um terreno, ergo um condomínio e fico por lá.
Pensando em tranquilidade, algumas cenas pipocam na minha cabeça. Quando temos tranquilidade? Já senti muita paz sentada na areia, olhando o mar. Já senti muita tranquilidade em tardes de domingo quando me deitava entre meus anjos peludos, Nina e Leléo. Ou lendo um bom livro. Ou fazendo movimentos de Tai Chi. E sinto muita paz enquanto corro, enquanto escorro de suor e por ele saem as desesperanças.
Mas, nada se compara à sensação de tranquilidade que eu tinha quando era apenas uma menina magrela, feia e sem graça e me deitava no colo de minha avó paterna. Se a palavra tranquilidade tivesse que ter um sinônimo, pra mim seria o nome de minha avó: Marcília Maria, ou Chila como era seu apelido.
No colo dela, cochilando ou enrolando os cabelos dela nos meus dedos de menina, eu estava em paz, estava bem, estava tudo certo.
Hoje faz 31 anos que ela morreu. Desde então o dia 13 de outubro nunca passou em branco na minha vida. Todos os anos eu passo este dia meio assim, dentro do meu luto de décadas. Morreu tão fragilizada, com problemas renais acarretados por hipertensão...
Minha vó tinha a voz grave e aveludada e quando me chamava de "fia", eu era feliz. Até hoje me emociono quando alguém usa a expressão "fia" no lugar de filha. Minha vó era caipira, "pirapora", e devota de Nossa Senhora Aparecida.
Era um doce, um anjo vaidoso que gostava de ter os cabelos enrolados, usar pó de arroz, perfumes doces e era tímida. Muito tímida. Tinha vergonha de tudo.
Pensando hoje, com minha visão de 43 anos, acho que ela foi uma mulher triste.
Se ela fosse viva teria 88 anos...
Se ela fosse viva eu a levaria passear e teria ensinado a ela a ler e escrever.
Se ela fosse viva pediria que fizesse um bom arroz amarelinho pra mim, daqueles de fogão a lenha, e comeria satisfeita. Depois deitaria em seu colo e ficaria ali. Não falaria nada. Acho que não iria precisar dizer nada. Sou previsível demais. E iria dormir. No colo da minha vó. Dormir um bocado. E em paz!
ANA CARDILHO 13/10/2008
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ALELUIAS DE OUTUBRO [Oct. 7th, 2008|06:20 pm]
Desde ontem, tento me livrar de umas asas de siriri que aparecem o tempo todo na minha mesa de trabalho. Estão por perto do computador, debaixo da pilha de livros, em cima do calendário de papel.
Quando penso que, ao passar a mão sobre a mesa, me livrei de mais uma asa, várias delas pairam e caem de novo sobre minhas coisas.
Desisti. Deve haver uma significado. Fui procurar e descobri que o siriri é um cupim alado, também chamado de sarará ou aleluia.
O siriri é o reprodutor que tenta achar o melhor local para começar uma nova colônia de cupins.
Tirando os chamados urgentes da natureza dos cupins alados que precisam se reproduzir, fiquei encantada com a textura das asas. Quase não existem. Leves. Absolutamente leves. Ao mínimo toque desintegram e deixam apenas uma sujeirinha na mesa.
Quem me dera tamanha leveza!
Eu que não sei voar e nem nadar e somente correr, sinto inveja dos seres que podem pairar, na água ou no ar, e reiventam o movimento.
Quando passo correndo pelo parque e uma pomba atravessa meu caminho, voando baixo, e ganha altura bem mais veloz que eu, abro os braços e tento capturar, o mínimo que seja, a sensação de sair do chão.
Eu quero sair do chão. E quero ter a cabeça nas nuvens. Mas sem cair, sem sentir o rosto colado no asfalto, areia na minha boca.
Desandei no quesito leveza neste ano do imponderável. Comecei bem mas os meses trouxeram perdas, dores e cenários confusos.
Tento arrumar asas extras, tento pular para o ar e ver se eu vôo. Leveza... Esse é o meu pedido para todos os seres alados, de aleluias a anjos, santos e decaídos.
Quero asas. Os sonhos moram lá em cima, não moram?
Só voando posso alcançá-los.
Só sonhando posso alcançar-me.
ANA CARDILHO 07/10/2008
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Sumidouros de Setembro [Sep. 1st, 2008|04:01 pm]
Hoje, a rua Teodoro Sampaio sumiu. Já esta nela, inclusive, e de repente ela desapareceu. Quando me dei conta estava na rua dos Pinheiros mas eu queria subir a Teodoro para seguir para o trabalho via Pacaembu. Sai da rua dos Pinheiros e fui virando e seguindo e buscando uma alternativa para voltar à rua Teodoro. Como ela poderia sumir se eu já estava nela? Pois, é. Sumiu. Comigo isso parece fácil e recorrente.
Quase sempre estou perto, na esquina, a duas quadras. Posso até ter achado a rua desejada e como num passe de mágica, tudo desaparece.
Hoje eu teimei. Tinha que voltar para a Teodoro Sampaio, não era possível!
Esquinas e esquinas depois, vira aqui e ali, a esmo, na sorte, no palpite e vi que estava numa rua chamada Sumidouro.
Fui seguindo... o nome "Sumidouro" exerceu algum fascínio sobre mim. Seguindo sempre em frente em uma rua com esse nome eu poderia sumir? Se ruas bem postas somem eu também não poderia sumir? Desaparecer?
Já estou tentando isso fisicamente com uma magreza extrema. Sumindo minha massa corporal talvez só restem idéias, palavras, escritos. Fui seguindo na Sumidouro. Onde pode terminar uma rua com um nome desses? Frio na barriga, angústia, medo. Mas segui adiante. Aumentei o volume do som do carro, onde furiosamente Placebo cantava, e fui mais um pouco.
Mais um pouco, mais um pouco... Estou sempre indo mais um pouco. Visto minha teimosia e aperto os cintos, cerro o zíper e lá estou eu...indo mais um pouco, tentando chegar onde é impossível chegar.
Sumidouro: ruas, situações, gente que é um sumidouro só.
Foi quando percebi que não adiantaria mais nada acelerar o carro. Poderia até pará-lo e ir a pé, andando ou correndo. Poderia tentar voar mas nada adiantaria seguir em frente. Mesmo sem chegar ao fim da rua, mesmo sem tocar o último pedacinho da Sumidouro entendi que ela não nunca acabaria. Entendi que eu não chegaria a lugar algum. Ficaria apenas aprisionada, trocando marchas, alimentando uma situação que em si é sumidoura.
Foi quando parei o carro. Foi quando baixei o volume do som do carro. Foi quando dei um grito animal que me deixou com a garganta arranhada. Foi quando me vi cansada, tendo que comer, tendo que dormir, tendo que reencontrar minha vida, minha paz, meus valores. Foi quando dei marcha-ré e dei as costas para a rua Sumidouro.
Na hora seguinte fiquei rodando sem nem perceber. Não sei por onde andei, nem quais ruas cruzei. Foi tanto sobe e desce!
E de repente, do nada, parada numa esquina, esperando o farol abrir, eu percebi que estava, finalmente, numa esquina da rua Teodoro Sampaio.
Daí foi fácil. Foi só virar à esquerda e trilhar o caminho conhecido para meu trabalho.
O poeta Paulo Leminski profetizava: "Distraídos, venceremos..."
Quando desisti do que não tem jeito e fim, do que só pode manter-me no limbo, quando desisti de achar qualquer rua que fosse, a Teodoro Sampaio reapareceu.
Saiu lá do fundo do fim da Sumidouro e eu pude ter um caminho. Caminho conhecido. Esses são os melhores. Esses são os que desejo. E necessito.
Começou setembro... Época de renovação. Estação das flores, do amor, da alegria. E lá vamos nós! Eu ainda não desisti do direito de ser uma pessoa leve e alegre. Não nasci assim. Mas é assim que vou morrer.
ANA CARDILHO 01/09/2008
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FORMIGA RUIVA [Aug. 28th, 2008|07:06 pm]
Quatro e quinze da manhã. Desisti de tentar dormir. Melhor fazer um café forte e ir correr aproveitando a energia do dia que começava a clarear. Não havia mais nenhum sonho que valesse a pena ser resgatado. Já estava tudo perdido.
Na cozinha, enquanto esquentava a água para um nescafé matinal com leite desnatado em pó, notei uma formiguinha no azulejo da parede, entre a pia e a janela da cozinha.
Tanto espaço! Minha cozinha é grande. E branca. Tantos azulejos e os dois janelões dando para o mundo lá fora e a pequenina formiga dava uns passos desorientados com os seus seis pares de patas peludas (acho que eram peludas) pra lá e pra cá. Sem avançar.
Pensei que se Lygia Fagundes Telles visse aquela cena poderia escrever que a formiguinha andava sem chegar a lugar algum, desesperada, com as mãos na cabeça, desfiando algum lamento.
Cheguei mais perto. Sou míope, precisava ver o inseto de perto.
Era uma formiga dessas comuns que vivem dentro dos apartamentos atrás de açúcar e imaginei que na minha casa ela se deu mal porque eu não como açúcar e deve existir em algum armário apenas um adoçante perdido.
Notei que a formiga era ruiva. Tive um aperto no coração. Formiga ruiva mexe com minha ternura, fico comovida, com dó, beiro a loucura com um sentimento doce que arde na minha garganta como se eu, que não como açúcar, engolisse muitas colheradas de algo extremamente doce.
Eu ali, em pé na cozinha, vestida para correr, tomando café forte e amargo e olhando a formiga que não avançava nunca. Uns passos pra cá, desistia, uns passos pra lá, desespero. Uns passos pra cá, desistia de novo, uns passos pra lá, mais desespero.
Tive a impressão de que ela estava com medo de seguir e pisar no rejunte que separa um azulejo do outro. Seria uma formiga ruiva toque? Dessas que não pisam em rejuntes? Ou será que ela sentia mal-estar se encostasse as patinhas no cimento áspero?
O balé pra lá e pra cá não acabava. Senti angústia por ela e estava quase pegando uma folha de papel para resgatar a formiga ruiva e jogá-la janela à fora, onde lá embaixo, na entrada do prédio, existe um jardim e além dele existe um mundo inteiro que poderia ser explorado, quando me dei conta de que não seria correto interferir nesse processo.
Era minha velha arrogância dando sinais de vida. Por que mudar a rotina da formiga ruiva? E se ela estivesse apenas se exercitando? E se estivesse seguindo ordens médicas de andar pra lá e pra cá para queimar calorias e baixar o colesterol? E se fosse um simples exercício de dança? Com que autoridade eu poderia desejar mudar a vida da formiga e jogá-la num jardim? E se ela sofresse de alergia a plantas e à terra?
Mais uma vez eu estava me sentindo poderosa, uma deusa que quer mudar tudo conforme seus próprios sentimentos.
Engoli o último gole de café e fui correr. Larguei lá a formiga ruiva. No meio da corrida me dei conta: eu não desejava salvar formiga alguma. Eu era a própria formiga andando de um lado para o outro e sem sair do lugar, sem poder avançar, com medo de pisar em rejuntes, com horror de conhecer novos jardins. Eu estava marcando passo e me aprisionando no mesmo azulejo, no mesmo limbo, enquanto os janelões estão abertos, enquanto está tudo aí... pronto para ser descoberto e vivido.
Foi bom voltar depois de uma hora de corrida, cansada, suada, esgotada a ansiedade da madrugada, e ver que já não havia mais nenhuma formiguinha ruiva no azulejo branco da minha cozinha. Se ela foi embora, se ela criou asas e virou borboleta, se ela saiu voando, se ela caiu na pia e se afogou no cano, se ela era um anjo e desapareceu, se ela era um fantasma e cansou de me apavorar, se ela era eu mesma... eu não sei... Não há apenas uma resposta. Mas, há uma lição, há um rejunte que eu preciso pisar e ir além. Dele e de mim mesma.
ANA CARDILHO 27/08/2008
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